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Há 40 anos, o operário Santo Dias era assassinado pela ditadura porque fazia greve
Metalúrgico de 37 anos tinha concorrido à direção do sindicato e liderou uma luta por direitos no campo
30/10/2019




 A professora de francês da rede pública de São Paulo Luciana Dias, de 52 anos, é filha do metalúrgico Santo Dias, morto pelo regime militar no dia 30 de outubro de 1979. O operário participava de uma distribuição de panfletos na porta de uma fábrica na zona Sul de São Paulo. A polícia chegou para dispersar o ato e prender os trabalhadores. O policial militar Herculano Leonel atirou na barriga de Santo Dias.

Em entrevista ao Brasil de Fato, a educadora relembra do pai, que se tornou um símbolo da luta operária, e do livro “Santo Dias: Quando o passado se transforma em História”, lançado em 2004 e relançado neste mês, em versão ampliada, pela editora Expressão Popular.

Hoje, a partir das 14h, acontece um ato em memória do operário, no terreno onde ficava a fábrica Sylvânia, local do assassinato, na avenida Nossa Senhora do Sabará, na região de Santo Amaro, perto do cemitério do Campo Grande,

Brasil de Fato: Quais as lembranças que você tem do seu pai?

Luciana Dias: São lembranças de criança. Eu tinha 12 anos quando ele morreu.Ele era um pai muito presente. Ele gostava de ver a gente lendo e estudando. A gente ajudava a preparar os jornais que ele ia distribuir na porta de fábrica.

E como eram os passeios com ele?

Ele levava a gente para fazer passeios culturais. Ele levava a gente à missa, religiosamente, todos os domingos, às 8 da manhã, porque ele era ministro da eucaristia e ele distribuiu o jornal ‘O São Paulo’ [da igreja católica] e dentro ele encartava o jornal ‘O Movimento’, que ele comprava do próprio bolso. Era um jornal mais de esquerda.

Ele lia muito em casa com os filhos?

Ele lia. Fazia a gente ler o jornalzinho do sindicato e dar a nossa opinião. Ele falava para ler e dizer o que entendeu do que leu.

O Santo Dias tinha o sonho de seguir uma carreira acadêmica ou que os filhos seguissem uma?

Ele não tinha uma carreira acadêmica universitária, mas falava que queria que os filhos estudassem. Ele sempre incentivou muito nos estudos. Ele fez o ensino primário no interior em classe multisseriada e ao chegar aqui [São Paulo] para conseguir alguma melhora no trabalho dele, ele fez cursos técnicos, como desenho mecânico e mecânica de precisão e inspetoria. Quando ele morreu o cargo dele era de inspetor de qualidade. Ele fez vários cursos no Senai.

O que mais ele lia?

Lia muito livros de história. Leu Marx, leu Mao… Meu pai foi sempre muito interessado em política. Mesmo no interior, quando era adolescente, ele redigia as atas da igreja. Por ele ser bom de síntese e de condensar ideias, os comunistas que estavam ali na comunidade católica se aproximaram dele. Houve uma formação política dele, através dessas pessoas, na igreja.

Ele começou cedo na luta contra as injustiças sociais, não é?

Ele era uma pessoa da roça, mas quando fez 17 anos descobriu que os lavradores tinham direito de ter a carteira assinada como trabalhador rural. Ele juntou todas as pessoas na fazenda onde moravam e encabeçou a primeira greve.

E o que aconteceu?

O meu vô ficou muito bravo porque o patrão falou que não ia assinar a carteira de trabalhador rural nenhum e disse ainda que os trabalhadores deveriam assinar um documento abrindo mão desse direito. O meu pai se recusou a assinar. Meu avô não podia assinar porque era analfabeto, a minha avó também. Ele era o filho mais velho. Ele se recusou a assinar e tiveram 24 horas para deixar a fazenda.

Você faz um trabalho militância cultural na periferia?

Aqui no território onde moramos. Na região de Jardim Ângela e Campo Limpo tem muita coisa acontecendo que não é bem divulgado. As pessoas acham que literatura periférica, poesia e o que acontece aqui no território é diminuído. Hoje em dia a literatura periférica está ganhando espaço e outras fronteiras.

Você escreveu o livro sobre a vida do seu pai em 2004 e está relançando agora em 2019. O que você avalia que mudou na política e na justiça social de lá para cá?

É uma volta de 50 anos, até lá antes de Getúlio Vargas. Você vê tudo o que conquistou se perdendo. É um grande pacote de perdas para os trabalhadores a partir da terceirização, que foi aprovada pelo Temer. É a desclassificação do trabalhador. A gente perdeu muitos direitos. Minhas filhas estão entrando no mercado de trabalho e a gente percebe que não tem mais essa história de oito horas de trabalho só, de horário de descanso. Agora tem a questão do trabalho intermitente. A empresa precisa de você então você trabalha, se não precisa você fica em casa, mas também não recebe.

Como você vê o legado da história do seu pai?

A partir do momento que você cresce na luta, cresce na história você não deixa morrer a história, mas 40 anos é pouco ainda. Com o tempo, a gente perdeu a mão do nome Santo Dias. Hoje Santo Dias é filme, é livro, é rua, é centro cultural é escola. Tem muita gente conhecendo a história dele. Nessa história, a gente tem que tirar o chapéu para a mulher, a Ana Dias, que é a companheira dele.

Como é a participação dela na história da preservação da memória de Santo Dias. Ela teve que enfrentar a ditadura também, não é?

Quando o corpo chegou no hospital de Santo Amaro, um padre disse que tinha um paroquiano lá. Os policiais disseram que não. Que era um indigente porque não tinha nem documentos e nem aliança. Os policiais armaram isso. O padre disse que então só queria dar uma olhada e viu que era mesmo o Santo Dias. Então ele disse que precisava rezar o terço. Ficou lá rezando perto do corpo para ganhar tempo até que a minha mãe chegasse, senão, a polícia iria sumir com o corpo.

E o que a sua mãe fez?

Eles queriam que ela provasse que ele era o marido dela. Ela chorando, desesperada. Ela ficou numa situação de super constrangimento. Daí colocaram o corpo na viatura. A minha mãe entrou junto e eles [policiais] empurraram ela para fora. Ela entrou de novo, ela segurava na frente do carro dos policiais. Eles falaram, leva ela e some com o corpo e com ela. Mas tinha que passar no IML antes. E o Dom Paulo Evaristo Arns já estava lá. E dom Paulo disse: ‘Vocês viram o que vocês fizeram?”. Eles responderam. “Dom Paulo, nós erramos. Agora vai ser tudo do bom e do melhor. Melhor caixão, enterro de primeira… vai ser velado na Assembleia Legislativa. Aí a minha mãe ficou uma fera. Não quero nada disso.

Fonte: Brasil de Fato

 
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